
Quando a indignação ainda começava, vi através do Facebook, Youtube e alguns mailing lists reservados, que os recifenses começavam a se organizar para fazer uma coisa que pouca gente faz e muito menos gente escuta: dizer o que pensam! Eu, bem de longe, Berlim, Alemanha, essa covarde que graças a um passaporte italiano provindo do pai, teve a oportunidade de escolher facilmente, viver num país onde não se necessita tantas guerras diárias para se viver uma vida minimamente digna, enchi meu peito de orgulho e esperança, ao ver uma jovem promotora recifense que na audiência pública falou coisas muito pertinentes e tudo dentro do que diz a tão ignorada "lei".
Vi professores e arquitetos se pronunciando, usando parâmetros de cidades grandes de países super desenvolvidos como exemplo para a discussão. Vi jornalistas e estudantes de jornalismo gastarem o seu tempo (que podia ser usado para coisas mais egoístas e prazerosas como a maioria faz), lendo, pesquisando e escrevendo textos para esclarecerem os menos informados sobre esse movimento que pede somente uma cidade boa de viver não só para eles mas para todos, agora e no futuro.
Vi gente duvidar que essas vozes seriam ouvidas, por exemplo pelo Jornal do Comércio, do nosso querido José Paes Mendonça, alguém nada interessado na mensagem dessas vozes, e que no final, cedeu a força destas e publicou algo respeito. Vi gente se preocupando em fazer uma manifestação pacífica, limpa, com coleta seletiva para reciclagem, com meios de transporte auto sustentáveis, atividades para crianças. Tudo a ver com a proposta. É disto que a gente tá falando! Vi os artistas, designers, fotógrafos, performers e a criatividade dos cidadãos dessa cidade, que como sempre, realizaram um espetáculo bonito no domingo 15 lá no Cais. Apesar de terem feito bem o seu trabalho, não me surpreenderam porque conheço o potencial desse pessoal de longa data e eu já sabia que seria assim.
Mas me surpreende os comentários e as piadinhas que li no Facebook e Twitter contra esse movimento. Eu fico curiosa: o que será que incomoda esse pessoal, dentro de uma proposta que só pede respeito aos cidadãos, mais estudo sobre a cidade enquanto espaço urbano e sobre as soluções dos problemas que todos nós vivemos, ricos e pobres, como o trânsito e a violência?
Esse pessoal por acaso não é aquele mesmo pessoal que viaja para a Europa e acha lindo passear na rua (em espaços urbanos como o Estelita) e tirar foto pra enviar pelo Instagram com filtro de polaroid pra família? Eu me pergunto se tem alguma foto na frente de um portaria de um prédio com um porteiro no álbum "Viagem à Europa" do flicker deles. Minha gente, essa luta é pra vocês também!
Dá pra perder o capítulo da novela de hoje e gastar um tempinho lendo as matérias, ver os vídeos e talvez conversar com alguém a respeito pra saber que o buraco é muito mais embaixo? Que essa "festinha" lá no Estelita é só uma forma de fazer esse tipo de gente como você, pelo menos, chegar a ter consciência do que tá acontecendo? Que tem muito mais backstage do que tu imagina? Parece que funcionou né? Agora vamos lá, hora de partir para a segunda etapa: se informar melhor. E se chegar no terceiro estágio, o de participar, aí ganha pontos Bom Clube da vida real.
E teve uma lá que critica o fato dos manifestantes terem IPhones e Instagram! Marrenada! Não dá pra ser mais superficial não minha filha? Como é que, diante de um problema tão mais importante, a única coisa que você observa é isso?? É de cair o queixo. Querida, os hippies foram os revolucionários dos anos 70. Isso foi há 40 anos atrás! Dá pra desimpregnar dessa paranóia? - Mas já que você tocou no assunto, btw, foi por causa desses hippies nojentos que tu pode dar uma com teu namorado antes de casar sem ninguém dizer nada viu? Essa coisa de menosprezar hippie, vou te dizer, tá fora de moda já...
Falando em Moda, agora tá super in (e eu amo muito isso) essas pessoas que você chama de hippies terem IPhones, Smartphones, Highspeed internet, títulos bem adquiridos nas melhores universidades, etc etc. Tudinho! Se acostuma com isso que não tem mais volta não viu?
Daqui pra frente é assim. Graças a internet e ascensão de algumas camadas da sociedade, acabou-se o tempo em que os donos do dinheiro eram os únicos donos da informação. Acabou o tempo quando todo mundo, como aquela publicitária lá, tinha o rabo preso pra "pagar as contas". E eu ainda sonho que muito em breve nos uniremos a rafaméia (como você diria e eu nem sei como se escreve) dos morros e ilhas do Recife, que hoje não têm tempo/espírito de ir no Estelita porque o dia a dia é muito cheio de problemas básicos. Mas ainda sim, tem dos que vão viu? Esses bravos guerreiros, a rafaméia, com sua vida difícil, sem IPhone, sem highspedd internet, tá fazendo um monte de coisa. E faz é tempo! Se você saísse do seu prédio, do seu carro e do seu shopping você poderia até ver com o seus próprios olhos - perdão pelo plonasmo inevitável.
Agora não tem mais volta, a Moura Dubeaux e Cia pode até construir dez mil espigões e fuder ainda mais a mobilidade, o clima e a paisagem dessa cidade, mas esse pessoal que você chama de hippie de butique vai se tornar cada vez maior e mais poderoso. E com você, sabe o que vai acontecer? Só coisa boa. Você vai ser uma velhinha feliz e seus filhos vão ter uma cidade melhor, menos trânsito, menos poluição e menos violência. Já pensou que legal? Aí quando chegar nesse ponto a gente monta uma empreiteira e derruba esses prédios todos só pra sentar e ver o nascer do sol de um lugar que não seja o terraço de um ricaço.